Ricardo Pinto

Quando recebeu a proposta de jogar no Atlético Paranaense, em 1995, Ricardo Pinto procurou se informar de como era a estrutura do clube. As notícias que chegaram não foram nada boas. Salários atrasados, falta de material esportivo, desorganização.

"Foi bem a época em que o Dr. Mário tinha assumido e não havia colocado nada em prática do que pensava. Apesar de jogar num clube de massa, como o Corinthians, eu fui atrás de mais informações porque queria saber onde poderia jogar. Um amigo falou que conhecia o Dr. Mário por causa da empresa dele e que sempre foi um homem de palavra. Assumi o desafio e vim para Curitiba. Foi a melhor coisa da minha vida", disse Ricardo Pinto, emocionado, aos produtores do Especial 80 anos da Furacao.com

Como surgiu a proposta para vir jogar no Atlético?
Quem me ligou na verdade foi o Vica, que jogou aqui no Atlético Paranaense também. Eu estava no Corinthians, estava muito feliz lá, apesar de não estar jogando, eu jogava algumas vezes. Aí o Vica me ligou, me convidando, me oferecendo essa oportunidade e eu procurei informações sobre o Atlético. E o que me chegou foi muito ruim, não foi bom. Salários atrasados, problemas de diretoria. Isso daí foi logo depois que o presidente Petraglia assumiu, quer dizer, ele não tinha mostrado nada ainda. O Vica estava deixando de jogar futebol e era empresário. Daí eu marquei um encontro com o presidente lá em São Paulo, no Aeroporto. Fui lá, nós conversamos, ele expôs o que queria. E aí eu conversei com o meu cunhado porque ele já conhecia a Inepar e já conhecia o presidente. E ele me falou muito bem do presidente. E eu tentando convencer a Andressa de virmos pra cá, e ela ‘não, estamos no Corinthians, não vamos sair, o Atlético não paga...'. E eu falei ‘ah, mas eu quero jogar', porque eu era reserva. Daí eu falei com o vice-presidente do Corinthians e ele disse ‘Ricardo, você não precisa sair, fica no Corinthians, nós vamos dobrar o seu salário, vou cumprir o que estou te oferecendo'. Mas eu disse, não, eu quero jogar. E foi a melhor coisa que eu fiz na minha vida.

E o projeto Petraglia, ele falou o que queria fazer?
Tudo o que ele está fazendo ele já falava. E ele dizia mais até. Esse negócio de abaixar salários dos jogadores para o clube conseguir pagar em dia, ele já falava. Que ia acabar a premiação, que ia acabar o bicho, tudo isso ele já estava prevendo. Clube-empresa ele já falava naquela época, isso em 95.

Como foi o primeiro contato com a torcida do Atlético?
Recentemente eu li no site de vocês, no nosso site, não me lembro qual foi a coluna, falando da torcida de antigamente. Retratou bem a realidade. Hoje não é mais aquela paixão. Hoje não se vai mais ao estádio para gritar, um estádio com 15 mil pessoas, gritando a mesma coisa, incentivando a mesma coisa. Hoje vai a ‘Fora Espinosa', ‘Fora Vadão', ‘Fora Mário Sérgio'. Modificou um pouco. Lógico que estava previsto que, quando construíram o Olímpico, em Porto Alegre, o Grêmio ia se Campeão Brasileiro. Com o Beira-Rio, a mesma coisa. Morumbi... Então com o Atlético não foi diferente, sendo campeão brasileiro. Isso é uma coisa natural. Mas, eu achei que esfriou um pouquinho. Eu não sei se esse negócio de brigar pelo valor do ingresso, de não deixar a organizada ir com bandeira... Então eu não quero falar dessa época. Eu não vivi essa época, vivi como treinador de goleiro, mas é uma coisa mais distante. Apesar que de que eu sentia até vergonha, intimidado, porque às vezes gritavam o meu nome e não gritavam dos jogadores. Eu prefiro falar da minha época, da que eu vivi, de 95 a 97, que foi realmente uma época maravilhosa.

Qual foi a maior alegria desse período que você jogou no Atlético?
Olha, a maior alegria foi lá em Mogi Mirim. Foi quando nós ganhamos de 1 a 0 e subimos, com duas rodadas de antecedência. Eu acho que no futebol, em termos de realização, foi maior do que ser campeão, porque o objetivo era esse. Aí todo mundo deu aquela relaxada, todo mundo deu uma esfriada. Eu me lembro perfeitamente desse momento. E depois eu tive várias alegrias.

E a maior tristeza foi lá nas Laranjeiras, né?
Não, lá não foi tristeza. Lá foi a constatação de uma realidade cruel. Dali para frente eu não tinha mais alegria para jogar futebol. Eu não tinha mais aquele encanto. Digamos que alegria eu sempre tive, até hoje eu jogo futebol. eu não tinha mais encanto, ali quebrou aquele encanto. Eu já não tinha mais aquele algo a mais que poderia ter. Interrompeu a magia. Porque foi uma coisa assim. Eu acho que briga tudo bem, vamos lá. E se o cara vem agredir de frente, a gente sai, reage, faz alguma coisa, bota o braço. Mas o cara vem por trás, sabe, eu não admito. Claro, que pra mim pouco importa quem foi, não me interessa, já acabou, já passou. Mas me atrapalhou muito aquilo ali. Muito e eu tenho certeza absoluta que, talvez não fossemos campeões naquele ano, mas que a gente ia bem mais longe, a gente ia. Não pelo Ivan, que é uma figura maravilhosa, um goleiro espetacular. Mas porque o grupo todo sentiu muito, todo mundo se abalou. Até hoje eu encontro e o cara fala ‘pô, aquilo lá atrapalhou, afetou o time psicologicamente'. O subconsciente ficou afetado e isso abalou. Então, quer dizer, o prejudicado foi toda a nação atleticana, jogadores, diretoria, torcida.

Você saiu do Atlético em 1997 e voltou em 1999 já como técnico dos juniores. Em 2001 foi treinador de goleiros e Campeão Brasileiro. Você também se sentiu um grande vencedor naquele dia?
Ah, foi uma emoção muito especial. Porque na verdade o Flávio sendo campeão brasileiro era como se eu estivesse lá. Porque a gente conviveu, o tempo todo que eu passei como jogador do Atlético ele estava junto, nosso relacionamento era muito estreito. E, depois, quando falaram no meu nome para ser o treinador ele aceitou prontamente. E aí tivemos uma relação muito boa também. Então, quer dizer, treinador de goleiro e goleiro têm uma afinidade maior que treinador e os jogadores. E eu com ele tive isso. E eu me senti realmente campeão brasileiro. Tem muita gente que não se sente, por um motivo ou outro, eu não participei daquilo ou disso, mas eu não, eu me senti completamente campeão brasileiro.

 

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