Julio

Em 1969, o lateral-esquerda Julio chegou ao Atlético Paranaense. Vindo do interior de São Paulo após uma grave constusão, se firmou como titular e foi campeão no ano seguinte, junto com outras feras como Djalma Santos e Alfredo.

Hoje o ex-jogador trabalha na Copel e guarda muitas lembranças do tempo em que atuou no Furacão. Apaixonado pela cores vermelha e preta, fez uma das maiores provas de amor ao clube ao doar o seu passe para a instituição, mesmo tendo propostas muito boas de outros times.

Na entrevista exclusiva ao Especial 80 Anos do Atlético Paranaense, Julio conta em detalhes como isso aconteceu.

Como é que o senhor veio parar no Atlético?
Eu joguei no amador em São Paulo, uns quatro anos. Em seguida me transferi para o Nacional. Joguei três anos lá e no último ano eu quebrei a perna. Em São Paulo, havia quatro clubes que me queriam: São Paulo, Vasco, Paulista de Jundiaí e mais um. Numa partida tive essa fratura e quando jogador fratura a perna ele fica desacreditado. Eu procurei algum time para jogar. Nisso falei com o Alfredo Ramos, que era treinador do Atlético, e expliquei para ele que tinha essa fratura. Quando cheguei em Curitiba, fui muito bem recebido e nunca mais saí daqui.

Desde 24, quando o Atlético foi fundado, sempre teve muita briga em Atletiba. Na década de 70, essa rivalidade era tão forte como é hoje?
Na década de 70, o que eu via eram carros com bandeiras na rua desfilando, pintavam o Homem Nu de rubro-negro. Não existia briga. Não tinha esse negócio do Atlético jogar na Baixada e dez torcerem pro coxa e 90 pro Atlético. Não existia isso. Todo mundo que ia lá ver o jogo comprava o ingresso normalmente. Não tinha espaço separado. A própria torcida se separava. A gente ficava no fundo e os coxas em cima. Hoje é uma guerra.

O Coritiba foi o grande campeão da década de 70. O senhor acha que um pouco dos títulos conquistados teve a mão da diretoria?
Teve a mão do Evangelino. O que acontecia: o juiz, na final, não era daqui, era de fora. Porque já vinha contratado. A gente sentia isso e comentava “a gente treina, treina, treina, quando chega ali o juiz mete a mão na gente”.

Como e porque o senhor doou o seu passe para o Atlético?
Um dia o Passerino (Rubens Passerino Moura, ex-presidente do Atlético) me chamou para conversar e disse “escuta Julio, hoje é dia do meu aniversário. Qual é o presente que você pode me dar?”. Eu falei que não sabia. Daí ele falou: "Julio, quero seu passe”. Respondi que tudo bem. Quando dei o passe a ele, o Alfredo Ramos não gostou e disse: “escuta Julio, você está bem, pode levantar um dinheiro, se você não quiser continuar aqui, tem outros clubes, tem o Londrina que te quer...”. Disse que doei porque gostei do clube, da cidade e vou dizer uma coisa para você: eu não me arrependo. Falo de boca cheia: nunca fui vaiado pela torcida do Atlético. Sempre fui aplaudido.

A que você atribui isso?
À raça. Não perdia nenhuma jogada pro centroavante mais rápido que tinha. Quando terminava os meus exercícios, corria no campo e batia recorde. Não tinha ponta-direita que me judiasse, pelo contrário, eu judiava deles.

O senhor continua indo ao campo?
Não, não vou ao campo. Minha família sempre foi, mas atualmente não tem ido mais. Porque a pauleira que dá depois do jogo não é brincadeira.

 

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